segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Oração da Criança Diferente ( Extraído da publicação "Informaciones para padres de niños y jovenes com necessidades especiais" - Serrano,J.A. )





Bem aventurados
os que compreendem
o meu estranho passo a caminhar
e minhas mãos atrofiadas.

Bem aventurados
os que sabem
que meus ouvidos têm que se esforçar
para entender o que ouvem.

Bem aventurados
os que compreendem
que ainda que meus olhos brilhem
minha mente é lenta.

Bem aventurados
os que olham e não vêem
a comida
que eu deixo cair fora do prato.

Bem aventurados
os que com um sorriso nos lábios
me estimulam
a tentar mais uma vez.

Bem aventurados
os que nunca me lembram
que hoje
fiz a mesma pergunta duas vezes.

Bem aventurados
os que compreendem
que é difícil converter em palavras
os meus pensamentos.

Bem aventurados
os que me escutam
pois eu também
tenho algo a dizer.

Bem aventurados
os que sabem
o que sente o meu coração
embora não possa expressar.

Bem aventurados
os que me amam como sou
tão somente como sou
e não como eles gostariam que eu fosse.


domingo, 14 de outubro de 2007

Compartilhando um pouco de mim

Sou, entre outras funções, Formadora de Formadores pelo CFORM/UnB em Alfabetização e Linguagem e ao inscrever-me neste Curso de Formação de Formadores em Educação Inclusiva atendia um antigo anseio interior de aprofundar em questões que permeiam a minha vida pessoal e profissional.
Sou a caçula da mulheres ( a sexta), depois de mim, veio o tão esperado filho homem do Seu Vico e D. Odete. Casal de lavradores dos confins de Minas. Um lugar espraiado que fica espiando a junção amorosa e respeitadora dos rios Verde e Grande.
Naquele lugarzinho verdejante e acolhedor, nasci. E cresci ouvindo o vento na janela e arrepiando-me de medo pelos "causos" de Seu Vico, sentindo os sabores todos da vida, os cheiros deliciosos e rotineiros da cozinha, os pássos rápidos de D. Odete, tudo a tempo e a hora. O farfalhar de suas sobressaias, seus muitos preceitos. Um deles, até, por demais permissivo: Ter vergonha é roubar e não poder carregar! Na minha bobice de criança roceira tentava entender o antagonismo entremeado nas palavras daquela guerreira. Adiante, já possuidora de um vernáculo mais apropriado, perguntei à D. Odete o que ela queria dizer com palavras tão fortes e ela com toda sua praticidade respondeu: Filha, vá à luta. Não se envergonhe de nada. Tudo o que é feito e pensado, se é por boa causa, tem seu valor. Essa máxima tem me valido em momentos de tropêços.
Um lar de pessoas iletradas, com pouco, ou quase nenhum uso social da língua escrita, mas, sobretudo, um lar de múltiplas possibilidades inclusivas.
Por sorte, em minha modesta casa, apareceram todos os prováveis e improváveis infortúnios desse e de outros mundos. E minha mãe, ali. Firme. Aroeira. Pau-pereira. Vilas Bôas de primeira.
A mais velha acometeu-se de tétano. Às custas de um bicho de pé mal retirado. Curou-se com remédio dado aos cavalos.
A seguinte sofreu de mal Samioto (existe???), popularmente cabeça-d'água e ainda- gaguejava.
A terceira, criada na barra da saia da avó materna, livrou-se de males piores, sobrando-lhe todas as doenças para as quais, hoje, existem vacinas.
A quarta, não teve tanta sorte. Teve paralisia infantil. Quanta dificuldade para meus pais sem recursos financeiros e nem medicinais. Para a pequena andar de volta, valeram-se de conselhos da sabedoria popular. Muito sebo de carneiro, muita gordura de cobra cascavel pelo corpinho judiado da menina. E muitas reses sacrificadas para que a garotinha fosse colocada dentro do bucho quente e assim, suas juntas amolecessem. Creio que essas medidas contribuíram um tanto. Mas a postura de d. Odete e Seu Vico para que todos aceitassem a menina, sem restrição alguma é que a fez ser uma mulher linda. Uma pessoa-estrela. De inteligência soberba e muitos atributos é mãe de dois filhos, consultora da Câmara de Deputados e Mestre em Educação pela UnB.
Mas as adversidades não terminaram. A quinta filha queimou-se numa "caieira" de mandioca. O fogo nas manivas, poderoso e assaz, esconde-se por baixo de uma camada de cinza e a mana entrou nessa armadilha.
Aí... nasce mais uma menina. A sexta. As outras, revoltadas, não aceitaram a pequena e ameaçavam de jogá-la no rio. D. Odete muito sábia, tratou de dizer que era "Joãozinho" e como sempre fui falante e espevitada, conquistei meu espaço nessa balbúrdia. A minha doença maior, era uma inquietação interior que se amortiza aos poucos, com o passar do tempo e a chegada da idade. De resto, dei trabalho não por doenças, mas por mal comportamento. Era menina mau exemplo. Inquieta. Como dizia minha mãe cheia de orgulho: essa aí, dá nó em goteira e esconde as pontas. Dei-lhe também muito carinho, muitas risadas e alegrias!
Por fim, chegou o menino, o sétimo filho. Se fosse mais uma menina seria, por certo, lobisobem, mas a complacência divina realizou um antigo desejo do casal. O menino teve o corpo extropiado por quedas de cavalo, por acidente de carro e pasmem! Um berne que desenvolveu-se entre o olho e pálpebra. Quando fizeram a cirurgia para a retirada do bicho, este já tinha cabelo. E só não posso mostrá-lo porque perdeu-se em alguma aula de ciência, onde era sempre sucesso. Meu irmão ficou estrábico, mas enxerga que é uma beleza!
Posso dizer que cresci entremeio às diferenças e aprendi a ser inclusiva na força da prática. E ainda hoje, quando recebo meus alunos com deficiência visual, auditiva, mental ou física, remonto-me às lições do cotidiano familiar para amar a todos e fazer o melhor que puder a cada um dos que convivo, independente de sua condição.
E agora, com esta oportunidade de aprender mais, ter um maior embasamento teórico para reconstruir e construir minha ação pessoal e pedagógica perante o diferente, percebo que sou privilegiada desde sempre.
Um abraço inclusivo a todos que tiveram a paciência de ler.
Profª Iêda Vilas Bôas